quinta-feira, 25 de abril de 2013

Há cerca de 15 dias, um evento foi palco de uma polêmica e constrangedora situação. Um escritor, no lançamento de seu livro, assedia claramente uma entrevistadora de um programa de humor. Não demorou muito para que a  situação mobilizasse a mídia, as redes socias e as mulheres do país. O interesse desse texto não é propor um juízo de valor a respeito do evento ocorrido, mas fazer uma reflexão a respeito do assunto. Para isso, voltaremos um pouco no tempo para fazermos um breve panorama da história da mulher.
Por volta dos anos 40 do século passado, a mulher começa a tomar a dianteira a respeito de seu futuro e de suas escolhas. Como os homens saíram para a guerra, foi preciso que alguém mantivesse o lar e fornecesse os insumos para a sobrevivência da família, fato que forçou a saída delas para o trabalho. Aliás, todo o século XX, já se inicia com um discurso feminista reivindicando direito ao voto e a equidade da mulher na sociedade. O mundo já não era o mesmo, as mudanças foram ocorrendo lentamente e enfim a mulher foi conquistando o seu espaço. Liberdade sexual, direito ao voto e ao trabalho foram as suas principais bandeiras. Essas conquistas foram extremamente relevantes para mulher daquele tempo e por conseguinte também permitiu às mulheres de hoje de desfrutar todas as liberdades concernentes ao gênero. Conforme o tempo foi passando, esses valores foram se expandindo vertiginosamente e a mulher ganhou um espaço na sociedade jamais concebido outrora.
Voltando aos nossos dias e à situação exposta no primeiro parágrafo, toda a sociedade julgou o ato animalesco do homem envolvido na situação. Todo mundo resolveu colocar panos quentes e desconversar a respeito das atitudes e sobretudo da roupa que a entrevistadora usava - um vestido extremamente curto e insinuante, que tinha um objetivo claro de provocar sensações em um homem. Sim, a atitude do homem é grotesca, e ele deve se comportar friamente enquanto uma mulher maravilhosa encosta nele, abaixa, sorri com sorriso levemente malicioso e fala praticamente sussurrando em seu ouvido. Tudo isso se justifica diante da lamentável situação. Todos nós assistimos o carnaval, um evento de mulheres lindas e nuas no qual ocorre uma sexualidade exacerbada e que ninguém censura ninguém, que é reduzido à definição de arte e que financia nas entrelinhas o turismo sexual, pois os gringos chegam aqui interessados somente em explorar as mulheres que estão aqui, mas isso não escandaliza e mobiliza as massas, sabe por quê? Porque mobiliza o capital da nossa cidade. Sabemos também de muitas mulheres que possuem o único objetivo de se aproximar de homens extremamente ricos e explorar claramente o seu corpo, assim como vimos a garota que leiloou a sua própria virgindade e que a sociedade agiu com a maior naturalidade. Assim, o conceito do feminismo caiu numa profunda banalização reduzida à exploração do corpo. A sociedade se vale de um discurso moralista, mas sequer sabe como esse movimento surgiu e quais eram os seus principais pilares. As mulheres de outrora viviam numa sociedade paternalista e moralista e sequer tinham o direito de transitar com liberdade nas ruas. Elas tiveram que lutar por isso e algumas deram as suas vidas para que isso acontecesse. Hoje, por não termos que lutar por nada disso, achamos que o feminismo se reduz a isso. O que mudou realmente? Mesmo com a liberdade que elas têm, a ideologia prega a mulher cachorra, escrava e que leva porrada de homens. Será que avançamos tanto assim? Certo dia, numa mesa de bar, ouvi  um discurso de uma garota que ridicularizava uma situação aos seus amigos, dizendo que um rapaz a respeitou e não tentou nada com ela no primeiro encontro. As próprias mulheres que facilitam a exploração de seus corpos, são aquelas que se dão ao direito de se escandalizar diante dessas cenas protagonizadas ao vivo. Ainda temos que crescer muito para semos capazes de fazermos uma autoavaliação dura e reconhecer que tanto homens quanto mulheres são responsáveis em igual medida pelas suas atitudes; já se foi o tempo em que estigmatizar somente os homens era completamente aceitável. Aliás, é muito confortável fazer isso para limpar o sentimento de culpa de nossas atitudes. A partir da emancipação da mulher, ela também conquistou um direito: o de fazer as suas escolhas, e ela deve ter maturidade suficiente para assumi-los.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Presente de Aniversário

Lembrando-me do meu último aniversário, creio que foi um dos melhores que já passei. Não houve  nenhuma festança, mas um evento singular me ocorreu nesse dia e eu jamais vou me esquecer. Eu transitava tranquilamente pelas ruas do centro do Rio quando uma chuva ameaçava a cair. Sem guarda-chuva em mãos, a minha preocupação era somente uma: encontrar um abrigo para me proteger. De repente, ao meu lado, uma senhora também tentava se abrigar da garoa que caía. Cinco minutos depois, ela começou a me contar a respeito de sua vida e das experiências que vivera. Falou-me de sua saída do Nordeste e a dura tentativa de vida no Rio de Janeiro, assim como o encontro com um rapaz alemão que transformara completamente a sua vida. Falou-me dos hábitos de seu tempo, casamento, amor ao próximo, respeito e felicidade, valores em profundo desprestígio no seio de nossa sociedade. Em 30 minutos, eu pude compartilhar momentos maravilhosos de uma vida e me presentear com aquela dádiva maravilhosa. Para mim, era um privilégio ser agraciado com tal experiência, poder ver uma senhora de 70 anos, viúva e completamente realizada, com um brilho nos olhos, sem lamentos de dores ou desilusões, pelo contrário, com a sensação de dever cumprido. Meia hora depois, a chuva cessou e ela se despediu de mim. Por fim, desejou-me tudo o que ela compartilhou de bom na vida. Vagarosamente, a silhueta dela se perdeu de mim pelo caminho e eu não conseguia me conter da alegria que aquele encontro me proporcionou e sem dúvida posso dizer que o melhor presente do mundo são essas ocasiões singulares que vida nos proporciona.